terça-feira, 8 de setembro de 2009

Esquecimento.

Ela deu as costas para você de novo,
Veja seu caminhar, ela não se importa.
Seus falsos sorrisos nunca a completaram.
Suas doces e falsas palavras sempre a infectaram.

Não existe mais certo ou errado,
Qualquer que seja sua postura,
Não há escapatória.
Não há chance de esquecer sua história.

Ela caminha ao longe,
Para mais distante de você.
O som de seus passos ecoa no chão de areia,
Ela deixou a marca de seu passado.

O vento colorido que toca seu rosto,
O redemoinho que ajeita suas roupas.
Ela vai sobreviver, você sabe.
Ela sempre foi a mais forte das mulheres.

Ela deu as costas para você de novo,
Cada passo a separa de um mundo sem cor,
Para uma existência em giz de cera roído.
Olhe como ela anda, você a verá de novo.

(Mariana
Montilha)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Anacronismo crônico - um pouco de nada.

"Correndo entre as valas de muros altos que alcançam um céu nublado, pichados por sentimentos rasgados, arranhados por sentimentos pintados. Pedras brilhantes em um chão de marfim contorcem-se em uma dança de vida e morte. Guiada pela escuridão, a vala pára em um campo de magia.
Um pouco da loucura, um pouco do vazio, um pouco do sempre, um pouco do tudo, um pouco do nada."

(Mariana Montilha)

Anacrônico.

Subindo pelas paredes,
Em cada centímetro do centro do mundo;
Onde quer que você esteja.

Olhe para mim,
Olhe para meus olhos.
Sentimentos falsos não completam.

Suba pelas paredes novamente,
Seu desespero sempre estará em seus olhos.

Você é um boneco empalhado,
O espantalho da plantação.
Sua tristeza toca o solo,
Espalhando-se pelo chão.

Rastejando pelo chão,
Sem qualquer ar de suficiência,
Você se completa em si mesmo.

Olhe ao redor, veja seu mundo,
Bem-vindo de volta.
Você se encontra em sonhos
Tingidos de sangue humano.

(Mariana Montilha)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Páginas e contornos

Escrevendo a vida em papel machê;
Contornado por riscos coloridos,
Que compões um desenho amassado pelo tempo.

Em letras engarrafadas,
Manchado por uma vida não vivida,
Sustentando-se em um eternidade de mentiras,
Corroída por um tempo de vida.

O contorno sustentado por ninguém,
As chamas que corroem,
As chamas que
destróem,
Sem alma, sem valor.

Em um canto rasgado,
Sentimentos de culpa se entrelaçam.
Dando-se a nota necessária,
Para um mundo encantado.

O que o sustentava foi abalado,
Sua caixa preta foi forjada,
Um risco fora d lugar,
Um destino tricotado.

(Mariana
Montilha)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Ponto úmido.

Seja forte, não chore,
Não chore esta noite.
Lágrimas secas não escorrem.

Onde quer que você esteja,
Esconda-se de qualquer sentimento.
As trevas virão te buscar,
Caminhando rápido, em contentamento.

Deite em sua cama,
Ela guardará seus segredos.
O travesseiro molhado não diz nada,
Ele guarda para si, constrói enredos.

Você é a cortina na sala de jantar.
Agora ela pega fogo.
Expondo para fora o que existe dentro.

Sua lágrima clareia o vento.
O ar agora é mais leve.
Sua previsão de tempo,
Contemple o momento.

Seja forte, não chore,
Não chore esta noite.
... Lágrimas em brasa escorrem.

(Mariana Montilha)

domingo, 16 de agosto de 2009

A realidade em ficção.

Sentada na cama que há tanto tempo abrigara dias felizes, e agora era obrigada a sustentar o peso da perda. Os cachos de cabelos ruivos batiam em suas costas, unhas de esmalte vermelho descascado, unhas completamente roídas, mãos tremiam levemente, enquanto os dedos insistiam em segurar um cigarro já queimado pela metade. Ao lado de seus pés encontrava-se uma garrafa e uma taça vazias de algum vinho barato. Seu olhar castanho claro esverdeado fixo no espelho pendurado à sua frente, preso à parede fria por um barbante prestes a se romper. Sem realmente enxergá-lo. Encarando mais do que a si mesma.
O clima de vazio tão pesado que pairava no quarto era dilacerante. O peso da perda, o peso da despedida. Não existia mais conforto naquele quarto, agora tão grande, tão vazio, cheio de melancolia e tristeza... O quarto que agora era só dela. Infinitamente dela.
Levantou a mão direita. Trêmula e fria como a de um cadáver, levou o cigarro aos lábios para mais uma tragada. Prendeu a fumaça em seu pulmão por alguns segundos, seus olhos se fecharam e ela pôde visualizar momentos felizes em sua imaginação. Em sua memória ainda repleta de momentos... Bons e maus. Que escapavam por cada poro de sua pele e entrelaçavam-se a mediocridade de uma vida agora conturbada.
O cigarro acabou, a bituca foi jogada dentro da taça vazia. Abaixou a cabeça até os joelhos, seus cabelos caindo para frente, tampando a visão do espelho sem vida. Escondeu o rosto nas mãos. Ela sentia tanto medo, como conseguiria viver uma vida inteira sozinha, agora que ele havia partido? Sempre haviam sido eles dois, em tudo. Como poderia sobreviver? Como continuar andando agora que sua sustentação havia desabado?
Não havia mais chão, não havia mais caminho. Sem sua luz-guia não havia esperança. Uma vida inteira de tristeza. Uma vida inteira vivendo em um passado aconchegante, acolhedor.
Não há esperança em um quarto afogado em melancolia, enquanto o despertador toca alegremente, quebrando o completo silêncio.

(Mariana Montilha)

sábado, 15 de agosto de 2009

Sou...

Eu sou a rodovia de mão única;
Que você atravessou sem dar importância.
Eu entrelacei meus caminhos,
Em ondas de inconstância.

Minha paisagem chama, seduz.
Em cada árvore que passa,
Você se emenda, reduz.
Pela metade - do avesso.

Eu sou aquela que você fingiu não ver;
Com a alma que você fingiu não ler.
Em um instante que você fingiu não existir;
Com sentimentos que você fingiu não sentir.

Sou os cacos de vidro no chão,
Espalhados como grãos...
... Instantes antes de a instabilidade chegar,
Você me deu as mãos.

Com a chama apagada,
Em um mar de incerteza.
Com os olhos fechados,
Em um instante inexistente.

(Mariana Montilha)