quinta-feira, 20 de maio de 2010

o dia de hoje.

Hoje o dia clareou cinza, com pedaços de neve no chão e gotículas de sangue nas janelas empoeiradas.
Hoje o mar parou para contemplar o céu carregado de dor, suas ondas, envergonhadas, calaram-se, uma a uma.
Hoje as flores do campo sentiram-se só, e ninguém evitou pisotea-las.
Hoje o vento soprou de uma maneira diferente, causando um som alto, agudo; Um choro doloroso.
Hoje olhos se encontraram para se perder, toques se passaram, sentimentos se fortaleceram, mas caminhos foram desviados; E ninguém mais se encontrou, em nenhuma trilha guiada, em nenhum chalé perdido.
Hoje passos foram ouvidos, sombras foram vistas dançando, e nenhuma delas parecia feliz.
Hoje minha voz calou meu silêncio, com lágrimas de desesperança.

(Mariana Montilha)

quinta-feira, 13 de maio de 2010

[entrando em desespero]

Frio. Medo. Solidão. Alguém me salve, por favor? Minhas pernas não me sustentam mais, nem sei para qual lado ir. Segure minha mão, por favor, não me abandone agora. Não vire suas costas, não dê de ombros. A dor é mais do que eu posso suportar. Os momentos de desespero, o vazio... é mais do que eu poderia supor. E eu sei que vou me desesperar novamente, assim que a luz se apagar, assim que o sol se pôr no horizonte.
Eu conheço meus passos, eu sei minhas dores. Elas estão tão infiltradas em cada poro meu, que eu mal posso enxergá-las. Mas eu as conheço, como as linhas, nas palmas de minhas mãos calejadas.

(Mariana Montilha)

terça-feira, 11 de maio de 2010

razão por respirar.

Foram dias lindos, momentos, sorrisos, olhares. Intensidade. Foram histórias, recordações, delicadezas. Tristeza compartilhada, dores, felicidades. Realidade. O passado rendeu, e ainda rende, memórias insubstituíveis, saudade absurda. A necessidade de ouvir aquela voz já superou qualquer outra. E a compulsão pelo choro tornou-se sempre presente. Eu era ainda uma criança a crescer. E ninguém passou por nós, ninguém capacitou-se em nos tocar.


Eu, sua criação imaginativa. Você, todo meu ser.

E quanta falta faz essa ausência de você em mim. Dores que já não são nem minhas. Nem as lágrimas, que escorrem aos gritos, serão ouvidas então. Eu conheço todas as suas dores, eu estive presa no mesmo lugar, sussurrando as mesmas palavras desconexas, chorando as mesmas lágrimas de solidão desesperada, naquela mesma distância percorrida em vão. Lágrimas pelo que foi deixado pelo caminho, pela dor do abandono.


E viver, sem sonhar. Pois o único sonho foi caminhar; E meu único motivo, imaginar.

Todo mal começou aqui, de um início sorridente, encantador. O Passado da não-mentira; o futuro ilusório da não-verdade. E superar-se em sua dor mais profunda, dando caminho ao desespero, envolvido em seus piores medos. Machucando-se cada vez mais.

Ao entrar em minha vida, sua alma estancou-se aqui. E agora, você se foi, levando junto de si parte quase total de mim.
Então, o vazio.

(Mariana Montilha)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

laços.

Desenrolar laços passados, desfazê-los em simples toques. Remendar um tecido vivo ao outro, de modo miserável, doloroso, em linhas tortas e sem vida.
Uma agulha fina, afiada, que impôs seu caminho, abrindo um minúsculo espaço entre poros de peles, juntando dois caminhos desencontrados; Um passado e um presente. Lágrimas de dor nunca mais escorrerão por aquela pele, pois seus olhos fechados não enxergam mais. Desfocados. Manchados.


(Mariana Montilha)

terça-feira, 20 de abril de 2010

concepção de verdade

Estarei mentindo se disser que não esperava ainda alguma consideração pelas memórias então partidas, mas aparentemente o passado está mais apagado do que pude supor. No entanto, estarei mentindo também ao dizer que essa decepção não era esperada. A dor um dia sua, já nem passa mais por mim, a decepção já nem me desola mais.
Foram tantas quedas que já nem me permito mais sonhar; tantas lágrimas escorridas que nem me lembro mais. As últimas palavras de despedida, hoje se perderam em um mar negro de mentiras. E nenhuma delas, hoje, faz algum sentido em minha mente já desesperada.

Sua libertação foi um coração partido, desesperançado, que hoje não sente mais. E é tão triste renunciar à isto.



(Mariana Montilha)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Fim.

Eu me levantei de meu túmulo e recolhi meus cacos espalhados pelo chão de marfim. Cada pedaço recolhido de mim mesma era mais uma lembrança dolorosa de um passado feliz, pintado de cinza e rosa.
Meus calcanhares não se aguentavam, quase quebrados de dor; os olhos ardiam, marejados pela maré da solidão desesperada e do vazio, agora, constante; meus pés descalços se cortavam lentamente nas lâminas do tempo. E até minhas mãos, que um dia encontraram o toque das suas, hoje se encontram vazias. Perdidas.

Sonhos ruins fazem com que eu me revire, incansavelmente, durante a noite estrelada. Olho para aquela constelação que me traz tantas recordações: "olá", eu repito novamente, sem qualquer vestígio de resposta.
Dar as costas, em um passo de cada vez, procurando seguir em frente, tentando não manchar o caminho com mais lágrimas.

(Mariana Montilha)

domingo, 14 de março de 2010

verdades e mentiras.

Eu sou tudo em apenas um, permaneço em constante mudança no tempo. Metamorfoseando-me de instantes em instantes. Avançando à passadas largas e inconstantes. Correndo os ponteiros do relógio, sussurrando inconformidades, gritando alegrias vorazes.
Eu avanço rumo ao precipício, vejo-me em seu buraco arqueado. Sou os dias que passam sem serem vistos. A visão embaçada daqueles que choram em um túmulo partido.

Ser um todo, ser um meio, ser vazio.

Um grande nada de esperanças incompreendidas, a ilusão inconstante, porém verdadeira. Eu me vejo nessa realidade aumentada, essa aproximação louca da vida que não faz sentido sequer para mim mesma.
Eu vejo esse instante que passa, essa maré que corre feito louca; O azul, o vermelho e o laranja que se misturam em uma canção de amor desfeita.
Eu me encontro entre picotes desnecessários de um papel escrito em tinta barata, cores desbotadas compõem minha imagem em palavras flutuantes. Os ponteiros dos relógios, que não andam. Horas e mais horas que não passam. A janela aberta contempla o anoitecer de tempos melancólicos, em uma constante alegria improvável.

(Mariana Montilha)